Atividades infantis dão lugar à prática esportiva com acompanhamento especial

Pique-esconde, pega-pega, queimada, amarelinha, golzinho… Há uma lista infindável de brincadeiras infantis, que, por diversas contingências, como espaço, segurança e tempo, têm perdido espaço entre as crianças. Na contramão disso, pequenos atletas começam a ganhar lugar em atividades de alto impacto, como corridas, ciclismo, e até treinamentos funcionais. O importante, dizem os especialistas, é que os pequenos estejam em movimento. Tudo com acompanhamento, é claro.

 

Taleto precoce, mas sem pressão

Rafael Herchenhorn, de 10 anos, sobe a Vista Chinesa – Alex Ward

Aos 10 anos, Rafael Herchenhorn é o exemplo da criança dos tempos modernos. As infindáveis brincadeiras infantis, nos dias atuais, dão lugar às atividades esportivas. E os pequenos impressionam com suas aptidões. O menino franzino já disputa provas de duatlo e acompanha o pai em algumas pedaladas pela cidade. Inclusive a subida – e descida – da Vista Chinesa, algo difícil para qualquer adulto.

Federado na Federação de Triatlo do Rio, ele se prepara para a última competição do ano em dezembro (150m corrida/700m ciclismo/150m corrida). No ano que vem, vai agregar a natação. Perguntado qual é o preferido, ele não hesita:

– Todos – diz Rafael, que começou a correr e pedalar aos oito anos, joga futebol e pingue pongue com os amigos.

Por isso, o pai Daniel Herchenhorn, que também pratica triatlo, procurou um pediatra para avaliar as condições físicas do filho. Ele passou por testes de força, cardiopulmonar e composição corporal. O resultado foi excelente. Porém, o menino faz apenas o que gosta, sem pressão.

– Ele não tem um treinamento fixo, faz o que está com vontade, não forçamos treinos – conta o médico oncologista Daniel Herchenhorn, que sempre procurou estimular as atividades físicas ao filho. – Alguns amigos ficam espantandos com ele. Quando subimos a Vista, vi que ele estava cansado, mas continuou e foi até o fim. Isso mostra que ele é competitivo. Mas tudo no ritmo dele.

 

Exemplo em casa faz diferença

Rafael Faustino treina corrida com os filhos e sobrinhos na Praça Dom Basilio, na Pavuna – Ana Branco / Agência O Globo

O exemplo dos pais é fundamental para as crianças terem gosto pela atividade física. Vide Daniel Faustino, de 6 anos. Filho do ex-atleta profissional Rafael Faustino, ele venceu as últimas cinco corridas da sua curta “carreira”. Todas nos 50 metros e 100 metros, distâncias permitidas para a sua idade.

– Ele participou da primeira corrida infantil aos 5 anos, pois algumas crianças que iam correr faltaram e ele substituiu. Dei uns treinos leves para ele, pois não gosto de dar muito treino para os pequenos. A escolha foi dele, que viu me viu em competição, via minhas medalhas, fotos e quis correr também – acrescenta Faustino, que já trabalhou em projetos sociais com crianças.

Hoje, o assistente do time de atletismo do Vasco criou o grupo TeamFaustino só com crianças. Os treinos são numa praça da Pavuna, onde mora, e na Lagoa para mais de 50 pequenos:

– Além do meu filho e dos meus sobrinhos, a equipe conta com outros filhos de atleta que também querem correr pelo exemplo dos pais.

 

Crianças na musculação e funcional? Sim, podem

O personal trainer Bruno Leal dá aula de funcional na praia do Leme – Leo Martins / Léo Martins

Daniel Susine, de 35 anos e 1,71m, foi ginasta quando pequeno. Os treinos exaustivos o deixaram forte, porém miúdo. Ele não queria que o mesmo se repetisse com o filho Thiago, de 13 anos, que joga futebol no São Cristóvão e precisa de reforço muscular e nas articulações. O menino, que joga na lateral esquerda e já elegeu o futebol como o esporte preferido, tem problemas no tornozelo direito, seu pé de apoio, resultado de lesões mal curadas.

– Thiago precisa crescer, na verdade. Se não crescer, é dispensado do clube – observa o pai, que lembra da fase de atleta: – Minha mãe me colocou na ginástica porque dizia que eu pulava que nem maluco e tinha de aprender a cair para não quebrar o pescoço (risos). Eu fazia o cavalo com alças e todos os meus amigos tiveram essa questão de estacionar numa altura. Claramente tivemos algum comprometimento no crescimento. Por isso, sempre tive receio de que Thiago passasse pela mesma situação.

Há um mês ele procurou um personal trainer para Thiago. Conta que o clube, que é pequeno, deixou de ter esse tipo de trabalho. E esse ano, saiu da série B e enfrenta rivais mais ricos, com estrutura diferenciada, mesmo na categoria sub-13, como o Flamengo.

– Ele treina com o peso do corpo dele, sem cargas. Faz exercícios de força de acordo com a sua idade e seu esporte. Não há exageros. Acho fundamental, aliás, que faça exercícios além do futebol. Escolhi um profissional de confiança, dedicado e que tem paciência – explica o pai. – Hoje, ele enfrenta meninos que tem uma preparação melhor e é bom que tenha essa oportunidade também.

 

Melhora na performance e na saúde

Bernardo Brasil, de 12 anos, faz funcional na praia do Leme – Leo Martins / Agência O Globo

Bernardo Brasil, de 12 anos, que também treina com Bruno, já sente melhora no seu desempenho no basquete. Ele joga no Flamengo e gosta de mostrar os vídeos de suas aulas para os colegas:

– Acho que melhorei na movimentação e na disputa de bolas – contou Bernardo, que gosta das corridas nas aulas de personal. – Meus amigos pedem para mostrar os vídeos dos meus treinos para seus pais porque também querem fazer.

Geisa, mãe de Bernardo, é adepta dos treinos na areia e sugeriu ao filho que fizesse atividade física com um personal para ganhar consciência corporal, além de colher os benefícios já sabidos na saúde e no bem estar:

-É importante ter essa consciência do corpo. E crianças aprendem rápido. Ele já pega a mochila da escola, que é pesada, com outra postura. Os exercícios são adaptados a ele, não é como musculação na academia – comenta Geisa, que tem aconselhamento médico. – Nosso pediatra incentiva a prática de exercícios físicos. Esse é um investimento na saúde, além de ajudá-lo no esporte que escolheu.

Maria Eduarda, irmã de Bernardo, tem 4 anos, e também entrou nessa dança. Gostava de ver a mãe na yoga e agora também faz, além da natação.

– É a coisa mais linda quando faz a saudação ao sol. Claro que é algo que eles gostam. Não adianta forçar.

 

Atividade em livre demanda e acompanhamento

Rafael Herchenhorn faz avaliação física com o Dr. Marcelo Riccio no Laboratorio de Performance Humana da Clínica São José, no Humaitá – Leo Martins / Agência O Globo

Atualmente, a sociedade brasileira de pediatria recomenda 60 minutos de atividades diárias, que envolvam força – e no máximo duas horas de TV, jogos, tablet e celular. No esporte competitivo, há demandas de esforço físico, componente emocional e nutricional, que necessitam outros tipos de cuidados. Qualquer que seja, a escolha é sempre da criança. E o principal de tudo: ela precisa se divertir.

– Ao longo do tempo, a atividade livre foi diminuindo por questões sociológicas, aumento do currículo escolar, menos segurança nas ruas. E as crianças foram direcionadas para a atividade esportiva, também com lado lúdico, divertido, mas com a participação do adulto, que estrutura o exercício e monitora – explica Marcelo Riccio, pediatra e especialista em medicina esportiva do Laboratório de Performance Humana da Casa de Saúde São José.

Antes dos 12 anos, no entanto, nada deve ser levado tão sério e nenhuma decisão precisa ser definitiva. Riccio explica que as crianças muito novas ainda não têm maturação suficiente para se dedicar a apenas um esporte.

– A especialização precoce é ruim. Há uma linha canadense que diz que o atleta precisa ter alfabetização esportiva na sua base. A atividade livre tem que ir diminuindo gradativamente até chegar a uma maturação e perceber qual o talento para o esporte. Quanto mais alfabetizado for (se aprendeu a jogar futebol, basquete, natação…) a chance de ser um atleta mais completo no esporte que escolher é maior – comenta o especialista, que se baseia num estudo norte-americano. – Quando se especializa demais, a criança passa a ter menos tempo para brincar, o esporte passa a ser menos divertido. E a principal causa de desistência da prática é quando fica séria demais.

Bruno Leal, treinador da Bhappfit e professor de Educação Física, conta que a maior procura por atividades como a de Thiago é de adolescentes que já escolheram uma modalidade esportiva e querem melhorar seu desempenho, se destacar.

– É, aliás, o que recomendo. Porque esse treinamento físico não é tão lúdico quanto o esporte, como luta ou dança, por exemplo. Geralmente quem se propõe são adolescentes que querem se aperfeiçoar na modalidade, ter um ganho para um determinado fim – comenta Bruno, que adapta os treinos outdoor e indoor de acordo com a necessidade do atleta.

Bruno explica que esses treinos desenvolvem a habilidade, a coordenação e geram força muscular. E que o uso de carga não é elevado e sim, apropriado.

– Não são adultos. São crianças ainda em desenvolvimento. Então, o ideal é que tenham acompanhamento médico justamente para detectar seu nível de maturidade. É essa escala que determina se a estrutura do corpo está preparada ou não para treinos com carga – explica o profissional. – Thiago e Bernardo, meus alunos, são concentrados. Percebe-se que já estão num nível acima, querem seguir carreira nas modalidades escolhidas.

Leia mais: https://oglobo.globo.com/esportes/das-brincadeiras-ao-esporte-competitivo-21911660#ixzz5ADxDRtKu
stest

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